Um ano sem frei Raimundo Nonato

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Frei Tiago Coelho – Há um ano, no início da tarde de um domingo de Páscoa, celebrávamos, surpresos, também a Páscoa definitiva de Frei Raimundo Nonato OAR. Sem dúvidas um acontecimento marcante nas páginas da história recente de nossa Igreja no Marajó e também no nosso coração como religiosos e leigos que compartilhamos do carisma Agostiniano Recoleto. Conforme navegamos no rio do tempo ganhamos em objetividade para compreender o contexto em que nosso estimado confrade foi chamado.

Algumas realidades significativas para nossa Igreja no Marajó e nossa missão Agostiniana Recoleta foram sendo esclarecidas ainda mais, entre outras coisas, com ajuda do tempo: Não estamos nas mãos de um vírus, tampouco nossa vida e missão transcorrem como um jogo de azar; sim, estamos nas mãos de Deus, que continua nos acompanhando – a nós que somos seu povo – através dos acontecimentos da história, inclusive daquelas realidades que não terminamos de entendê-las com a simples razão.
Estamos vivendo um tempo de graça em nossa Prelazia do Marajó enquanto a profundidade do esclarecimento acerca do porquê de nosso batismo, do que significa ser Igreja Marajoara: estamos navegando nas águas do Sínodo para a Amazônia, contemplamos no horizonte não distante a VI Assembleia do Povo de Deus; são acontecimentos que expandem nossa consciência no que diz respeito à dar razões de nossa fé, e vivê-la como povo marajoara.

Assim que, há um ano da partida de Frei Raimundo OAR, importante lembrar e rezar dentro do que a ocasião nos propicia: trata-se de nosso oitavo religioso que deixa sua vida enquanto residia na Prelazia do Marajó, desde “o primeiro mártir do Marajó”, Frei Zacarias. O momento nos convoca à rezar não somente por Frei Raimundo OAR, mas também por tantos religiosos e religiosas, irmãos e irmãs, assim como por tantos leigos e leigas que compartilham de nosso carisma Recoleto através do labirinto de rios e vastos campos que são as artérias e formam o corpo da Igreja Marajoara há quase um século.

 Apesar de viver pouco mais de um ano na Paróquia Nossa Senhora da Luz – na Região Pastoral das Ilhas da Prelazia do Marajó (Portel-PA) – a pessoa e presença singela do “Frei das figurinhas” marcou a vida de muitas pessoas, especialmente das crianças da catequese de Primeira Comunhão, assim como da Juventude e dos Ministros da Palavra e da Eucaristia; nesse sentido, também deixou sua marca na Rádio Comunitária no município de Portel-PA.

Frei Raimundo OAR – como não podia ser de outra forma – com seus gestos, atitudes e palavras junto do povo enfatizou bem o que é ser religioso Agostiniano Recoleto: um frade com conteúdo e próximo dos que estão à margem. Uma dessas pessoas que são como um facho de luz em nossas vidas, um sinal simples e profundo do Reino. Justo quando começamos a adentrar nos caminhos do que a Igreja no Brasil chama de Iniciação à Vida Cristã, o Senhor nos permitiu compartilhar do dom da vida e vocação de nosso frade de riso fácil, presença marcante e palavras profundas. Como o próprio dizia: “A Igreja são as pessoas, cuidemos das pessoas”.

 Nessa data, demos graças a Deus por tantos frades e irmãs Recoletas que passaram por nossa Igreja no Marajó. Façamos também uma prece vocacional a favor de tantos jovens marajoaras; que se sintam animados para seguir adiante a inquietude iniciada por Santo Agostinho.

 Finalmente, talvez a ocasião também nos esteja convidando para relembrar as palavras de nosso bispo Emérito da Prelazia do Marajó, na missa de sufrágio por Frei Raimundo OAR – na Catedral de Soure, dia 11 de maio de 2020. Naquele dia intitulamos as palavras de nossa bispo assim: OS GOLPES DE REMO NA CANOA DE MINHA VIDA.

A seguir o texto na integra:

(Palavras de D. José Luis Azcona, na missa de sufrágio de Frei Raimundo Nonato (OAR), dia 11 de maio de 2020, na Catedral Nossa Senhora da Consolação em Soure (Prelazia do Marajó, Pará))

Como velho missionário Agostiniano Recoleto, penso no Frei Raimundo – muito mais jovem que eu – chegando no porto do seu destino, na outra beira. E penso no exemplo de como tantos irmãos e irmãs Agostinianos têm entregado toda sua vida no Marajó.

A morte completamente inesperada deste nosso querido irmão Agostiniano Recoleto missionário, traz à mente a necessidade de perseverar. Faz-me pensar nos últimos golpes de remo na canoa da minha vida para poder chegar na outra beira onde já chegou este querido irmão.

Penso na mesma rota que o Frei Zacarias Fernández na década de 40, que morreu afogado nas águas do Arapixi [Em Chaves-PA]. De modo semelhante, o Frei Román Echavarri morreu no Paracauari [em Soure-PA], no dia 29 de junho de 1981. Ambos enterrados no nosso cemitério de Soure.

Esta terceira e inesperada morte me traz a necessidade da perseverança, de não ficar pela metade na navegação, de navegar até quando não tem vento. Quando não se pode navegar a vela, então a remo, na dureza, na fé.

No Evangelho deste V Domingo, Jesus diz: “Na casa de meu pai há muitas moradas” (Jo 14,2). Jesus sabia muito bem que a morada do missionário Frei Raimundo já estava preparada, por isso veio e levou-o.

[João 14, 1-12] É uma Palavra para todo aquele com medo da morte, que Jesus nos fala também pela vida de Frei Raimundo: “Quando eu tiver ido preparar-vos um lugar,
voltarei e vos levarei comigo” (Jo 14,3).

Que simplicidade! a do nosso Salvador. Ele é a ressurreição e a vida.

 Santo Agostinho descreve a outra beira, o céu, [parafraseando] assim: “Lá no céu o veremos cara a cara. Veremos, e vendo contemplaremos; contemplando, amaremos; amando, louvaremos. Este será o fim sem final”. Ver diretamente a Deus; louvá-lo com os “Aleluias” eternos.

Desejo à todos os nossos irmãos Agostinianos Recoletos de nossa Província [S. Tomás de Vilanova] o fervor Missionário. Olhemos a vida de Frei Raimundo não para ficarmos apreensivos porque Marajó é risco. Sim, por que mentir? Olhar com a alegria de poder dar, como Jesus – o bom pastor – a vida pelas ovelhas. Assim como o povo do Marajó está dando no abandono total.

O pastor tem a mesma sorte das ovelhas. Frei Raimundo desde o céu abençoa-nos, dá para nossa Província a coragem Missionária, que não termine nunca; desde o céu, intercede por nós nos últimos ou penúltimos golpes de nossa vida.

Frei Raimundo. Parabéns!

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