Agostinianos Recoletos
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Entrevista com Frei Ademir: vítima do Coronavírus

As mensagens que mais recebi e continuo recebendo são: “tudo vai passar”, “sairemos desta”, “vamos vencer”.


Por Rodolfo Werneck

Frei Ademir Garcia é arquivista e tradutor oficial da Província de Santo Tomás de Vilanova e da Ordem dos Agostinianos Recoletos. Ele reside atualmente no Rio de Janeiro, junto com outros religiosos trabalha na Cúria Provincial, além de atender a Paróquia Santa Mônica, no Leblon.

Recoletosstv.com conversou com ele após ele ser vítima da Covid-19, “momentos difíceis”. O religioso agostiniano recoleto contou-nos a sua experiência e afirmou “o otimismo nos ajuda a olhar para frente”. Mas não podemos ser ingênuos: a pandemia é real. Sem jamais nos descuidar, alimentemos a fé e a esperança no Senhor da vida, pois é o único que dá sentido a tudo.

1. O senhor também foi vítima da Covid-19, e hoje está curado. Poderia nos relatar um pouco desta experiência? 

Tive os primeiros sintomas no dia 26 de março, terça-feira. Tudo me parecia um simples resfriado. E foi com essa impressão que me cuidei. Mas nada melhorou.  

Na quinta-feira, dia 27, levaram-me ao serviço de emergência da Clínica São Vicente. Depois dos procedimentos burocráticos me impuseram uma máscara e me levaram para uma sala de atendimento. Uma pesada porta de vidro me separava das pessoas que me olhavam como um ser perigoso. Não se atreviam sequer a se aproximar da porta. A médica ainda não havia chegado. A espera foi angustiosa. Quando finalmente ela chegou examinou-me e disse que ia pedir alguns exames. Depois de uma espera que me pareceu infinda, veio alguém que colheu amostras de sangue. Depois veio outro alguém que fez o eletrocardiograma. Depois outra pessoa me levou para fazer ressonância computadorizada. Todos com touca, máscara, luvas e revestidos de um avental que imediatamente era descartado. Devolveram-me à sala de atendimento. Uma espera que me pareceu eterna. A médica veio me informar que eu estava com pneumonia e “com possibilidade de coronavírus”. Determinou minha internação imediata. Terminado o plantão da médica ela desapareceu. Nunca mais a vi. Em seu lugar assumiu uma jovem muito prestativa, interessada, atenciosa que me acompanhou até o final do dia. Depois de avaliar minha situação ela considerou que não havia necessidade de eu ficar internado. Assim, às 18 horas me mandou pra casa com um caminhão de recomendações. Só voltei a vê-la oito dias depois. 

Passei uma semana em casa seguindo os procedimentos recomendados. Dos sintomas, a única que não me largou um momento sequer foi a tosse. Em algumas ocasiões chegou a quase me tirar o fôlego. Tomei o xarope indicado pela médica, mas nada resolveu. As dores também eram poucas; a mais comum era dor de cabeça. Apetite zero. Dificuldade imensa de comer. Tentei driblar essa situação da melhor maneira possível: comida pastosa, quase líquida, tomando sucos, comendo frutas […]. Em uma semana meu peso caiu de 67 para 64 quilos. Meus confrades mantinham contato quase diário com a médica, até que no dia 1º de abril ela pediu para me reavaliar. Pediu novos exames, mas me informou que o primeiro teste de coronavírus tinha dado positivo. Assim, determinou minha imediata internação no centro de terapia já preparado para tais casos. 

Os sintomas continuavam os mesmos: mal-estar no corpo, desconforto, tosse. Algo muito importante: em nenhum momento tive dificuldade de respirar; no entanto, assim que cheguei no quarto me colocaram um cateter no nariz para oxigenar o sangue e mantê-lo, como diziam, em um nível razoável de saturação. O ideal, como me explicaram, é entre 90 e 100. Eu estava oscilando entre 92 e 94. 

Segui minha rotina recebendo soro, antibiótico, analgésico, antitérmico e o oxigênio para manter a saturação sanguínea. Tudo era monitorado dia e noite, tanto pelos profissionais quanto pelos aparelhos. Quase todos os dias recolhiam amostras de sangue para exame. E cada vez era uma saga, pois as enfermeiras tinham grande dificuldade para achar minhas veias. Resultado: hematomas nos dois braços.  Passados os dias, eu já me alimentava um pouco melhor, mas a comida ainda era mais pastosa que sólida. 

Nos últimos três dias eu já me alimentava bastante bem, pois já conseguia mastigar e deglutir comida mais sólida. Minha saturação sanguínea estava excelente: entre 95 e 96; tanto que o cateter foi retirado. Minha temperatura se manteve em torno dos 36 graus. A pressão sanguínea sempre boa, tanto que no sábado, dia 11, a médica disse que estava pensando em me conceder alta no dia seguinte, domingo, desde que meu intestino estivesse funcionando satisfatoriamente. O Domingo chegou. Com ele a celebração da Páscoa, ao menos na mente e no coração. Minha liberação, no entanto, ficou perdida no meio do caminho. Fui liberado somente na segunda-feira, dia 13. Quando finalmente coloquei os pés lá fora, já passava do meio dia. Como última recomendação, tenho de ficar ao menos sete dias em absoluto isolamento, pois o último teste apontou que o vírus não havia sido totalmente debelado. Por que, então, me deram alta? 

Durante estes 13 dias de internação estive tão focado no que faziam e diziam os profissionais de saúde que precisei de outras pessoas para lembrar do meu Senhor e meu Deus. Que Ele me perdoe. Mas em nenhum momento esqueci da minha Mãe. A ela recorri com frequência, do meu jeito, com muita simplicidade, como sempre fiz. Nada de discurso requintado. “Ó, Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”. 

Permitam-me dizer que minha maior angústia foi ter ficado uma semana sem nenhum contato com minhas famílias religiosa e biológica, sem nenhuma notícia. Agradeço a todos pelas orações. Agradeço de modo particular a Frei Didier que, pacientemente, me assessorou e continua assessorando neste processo de recuperação em casa. 

Este relato tem por objetivo falar da minha experiência pessoal. Existem muitas pessoas melhor qualificadas que eu para fazer uma análise sociológica e midiática da pandemia. 

2. O senhor sentiu medo? 

Estive tão focado acompanhando a ação e as orientações dos profissionais de saúde que não tenho como afirmar se senti ou não medo. Preocupação, sim, a todo instante. 

 3. Como o senhor vê a realidade da pandemia? 

Como disse anteriormente, existem muitas pessoas melhor qualificadas que eu para fazer uma análise da pandemia. Além disto, como infectado estive quase um mês isolado, sem poder acompanhar as notícias. Portanto, não tenho elemento suficiente para emitir qualquer opinião. 

4. Como um religioso agostiniano recoleto vive esta quarentena? 

Eu diria não como ele vive, mas como deve viver: com fé e esperança. Deve seguir as recomendações preventivas, mas como homem de fé e de vida consagrada a Deus. Simples assim. 

5. Muitos dizem que teremos uma fé renovada após esta pandemia. Conversões acontecerão. Deus voltará a ser protagonista na vida das pessoas. O que o Senhor opina? 

Sou um tanto cético com relação a isto. A humanidade já passou por outras pandemias que ceifaram milhares de vida. No entanto, quando a água deixou de bater no traseiro, as pessoas voltaram a viver como se nada tivesse acontecido. Deus sempre foi e será o protagonista, mas o ser humano lhe dá pouco espaço para que exerça seu protagonismo. É a eterna sede de querer “ser como deuses”. 

6. As estatísticas em nosso país estão aumentando drasticamente. Deixe uma mensagem de conforto para os brasileiros neste momento. 

As mensagens que mais recebi e continuo recebendo são: “tudo vai passar”, “sairemos desta”, “vamos vencer”. O otimismo nos ajuda a olhar para frente. Mas não podemos ser ingênuos: a pandemia é real. E quem perdeu algum ente querido por causa dela sabe do que estou falando. Sem jamais nos descuidar, alimentemos a fé e a esperança no Senhor da vida, pois é o único que dá sentido a tudo. “Quem crê em mim, mesmo que morra viverá” (Jo 11,25).

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