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Entrevista com Frei Javier Tello: «Não me uno àqueles que dizem que o mundo merecia isso porque estávamos ultrapassando os limites do planeta»

Por Nicolás Vigo

Frei Javier Tello é Vigário Provincial da Província de Santo Tomás de Vilanova, da Ordem dos Agostinianos Recoletos. Ele reside no Rio de Janeiro, Brasil, junto com outros religiosos da comunidade que servem a paróquia de Santa Mônica, no Leblon.

Recoletosstv.com conversou com ele sobre a realidade do Brasil e do mundo em tempos de pandemia. Os religiosos agostinianos reafirmaram que somente a esperança em Deus pode nos tirar dessa crise; ele também expressou sua proximidade com aqueles que mais precisam.

Frei Javier, o Brasil é um dos países da América do Sul que mostra altas estatísticas de infectados pelo coronavírus. Como você vive essa realidade da sua comunidade?
Penso que a resposta parece simples: em casa, em comunidade, com dor e esperança. Uma mistura que parece um pouco estranha, mas real. Olhando com dor o que está acontecendo não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, porque realmente quem sofre neste momento são os mesmo de sempre, quem tem menos, quem menos pode, quem sabe menos.

Dito isto, há a segunda parte. Uma realidade vivida com esperança, ansiosa, tentando ajudar sempre que possível. Continuamos a coletar ajuda para enviar cestas básicas, organizando a policlínica para que, quando voltarmos ao normal, continuemos ajudando aqueles que mais precisam. Junto com isso, estamos encarregados, como muitas outras comunidades, de transmitir as celebrações da Eucaristia, adoração através das redes sociais que todos vocês conhecem.

O que você opina da maneira como essa pandemia paralisou o mundo?
Não me uno àqueles que dizem que o mundo merecia isso porque estávamos ultrapassando os limites do planeta. Não, não acho que essas respostas sejam boas, mas acho que teremos que escrever uma carta agora e abri-la quando voltarmos ao “normal”; para nos lembrar das muitas coisas que agora acreditamos que devem ser mudadas. Essa mudança de ser, de primeiro acontecer em nós mesmos, para sermos capazes de mudar o mundo.

Você acha que as medidas que o Estado tomou são suficientes?
Como descobrir. Estamos diante de uma situação totalmente nova para todos. As opiniões e as diferentes opções que podem ser tomadas e que o Estado implementou em alguns casos significam vidas (salvas ou perdidas). Acredito que as medidas foram tomadas na direção certa e que as atuais propostas de abrir mãos da quarentena e implementar diferentes soluções não serão possíveis de avaliar até que algum tempo tenha passado e possamos ver os resultados na perspectiva do tempo.

Muitos afirmam que essa pandemia tocou os próprios fundamentos de nossa cultura e modelo econômico: o que você acha?
E onde está o fundamento de nossa cultura? Qual era? Em um mundo que tem uma mistura de tudo, é muito difícil falar de uma única fundação ou modelo único. O que eu acredito é que essa pandemia descobriu quem é valioso, e quem devemos cuidar com mais atenção, e também que não podemos demonizar tão facilmente pessoas, grupos, mídias que agora estão se mostrando caminhos de encontro e ajuda. Além disso, essa pandemia expôs, mais uma vez, o egoísmo e os interesses pessoais, nacionais e mundiais que aparecem toda vez que a coisa se torna sombria na humanidade.

Alguns comentam que o homem esqueceu sua fragilidade e contingência e que essa pandemia o ensina dolorosamente o que ele realmente é. Você compartilha esse julgamento?
Acredito que o homem nunca esqueceu a fragilidade que carrega em si mesmo. Quem diz que eu acho que não olha todos os anos, todos os dias, todas as notícias que nos atormentam: mortes sem sentido, desastres naturais que nos ensinam que somos muito, muito pequenos e … eles podem colocar aqui tudo o que vier à mente . E não será muito difícil expandir a lista se você colocar doenças que ainda não podemos curar. Infelizmente, não aprendemos, mas quando a dor o toca em sua própria carne.

O Brasil ofereceu o seminário em Maringá para servir de acomodação aos trabalhadores da saúde que estão enfrentando uma pandemia. Que outras iniciativas foram tomadas como Província para apoiar esta emergência global?
Alimentos e produtos de higiene estão sendo coletados em diferentes locais. Continuo apoiando, em todos os nossos ministérios, os funcionários que mantemos, mantendo os pagamentos mensais e atento às suas necessidades.

Da mesma forma, em alguns ministérios de nossa Província, cestas com alimentos foram entregues aos mais pobres, àqueles que nada têm. Da mesma forma, através de nossas mídias sociais, como no caso da Santa Mônica Rádio, oferecemos boas informações (dados oficiais e reais) para dar esperança aos ouvintes em um momento em que o sensacionalismo parece ofuscar a verdade e criar pânico. Da mesma forma, paróquias e conventos com suas redes sociais mantêm a fé e a esperança dos fiéis.

Como está sua família na Espanha? Você sofreu alguma perda de amigos?
No momento todo mundo está bem. Quanto à questão de saber se eu perdi amigos. Bem, todos nós estamos tendo perdas direta ou indiretamente. Pode ser que você não tenha perdido um amigo, mas que ainda não tenha perdido amigos porque eles perderam seus entes queridos.

O que você diria para as pessoas que têm medo da sorte que poderiam enfrentar diante da doença?
Esperança. É a única palavra que posso pronunciar. Uma certa esperança, porque a humanidade sempre foi salva, mesmo em meio a guerras e outras pandemias e desastres. E acrescento, uma esperança, de nossa fé, cheia de um Deus que tira a vida da morte.

Que papel Deus desempenha no meio da pandemia?
Talvez eu tenha respondido inadvertidamente a pergunta anterior. Para mim, é o ponto de esperança, o apoio que temos quando tudo ao nosso redor parece perder peso, segurança, certeza.

Você se atreve a imaginar a humanidade após o COVID-19?
Claro que sim. Vamos continuar caminhando. Nos encontraremos, choraremos por aqueles que perdemos e nos olharemos com alegria olhando para o futuro e, espero, pensando no que podemos fazer para melhorar a partir daí, melhorar em comunidade (Traduzido por Rodolfo).

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